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14 fevereiro 2016

A VIDA DEPOIS DO CANGAÇO - PARTE FINAL



Marinheiro era ainda mais jovem que Criança quando entrou no cangaço. Foi em 1936, ele estava com treze anos. 

— Fui chamado pelo meu cunhado Zé Sereno. porque a volante queria me caçar. Depois que minha irmã Cila resolveu acompanhar o Zé, minha família passou a ser perseguida. 

Até então, Marinheiro era vaqueiro de seu tio China, na Fazenda Recurso, em Sergipe. Voltou a ser vaqueiro depois do cerco de Angico, do qual escapou "correndo como louco no meio das volantes". Estava transtornado. Vira Maria Bonita morrer, bem de perto.

— Ela estava desarmada, nem pôde se defender.

 Como Zé Sereno, Marinheiro foi trabalhar na fazenda dirigida pelo Sargento Cardoso. De lá seguiu a mesma trilha: Palestina, Martinópolis, São Paulo. No começo, em São Paulo, a vida foi muito dura. Por dez anos, trabalhou na lavoura. Depois. passou para a indústria química, onde está até hoje. Vive satisfeito com o trabalho, com a vida. 

— O cangaço era um inferno. Nem se podia dormir. Mas a gente não tinha outro jeito, não tinha encolha. Aqui a gente tem liberdade e pode dormir sossegado.

Marinheiro casou-se com a filha de um ex-volante, mora em casa própria. As filhas mais velhas, Maria José, de vinte anos, e Ivani, de dezessete, trabalham para ajudá-lo. Um dos meninos, Isaurino, está no quarto ano primário, e o outro, Wilson, de seis, saiu agora do jardim de infância. 

— Se Deus quiser, eles vão ter na vida o que o pai não pôde ter. Marinheiro foi um dos raros cangaceiros que jamais sofreu um ferimento de bala. Corria no sertão que ele tinha "corpo fechado", fora encantado para ficar imune a tiro ou golpe de arma branca. Ele jura que não. 

— Eu não tenho não. Mas tem muita gente que tem. 



"O que passou, passou" 

Zé Sereno é muito católico, organiza romaria todos os anos, em outubro, a Aparecida do Norte, sua padroeira. A mulher, Sila, é espírita, médium, mas ele é devoto da santa; usa sempre, fora da camisa, uma medalha de Nossa Senhora Aparecida. É outro homem, diferente do cangaceiro Zé Sereno. Agora sabe ser tolerante. Após a apresentação ao ex-volante Adriano, fechou o rosto, contrariado, mas logo se descontraiu, abriu a guarda. Passada a surpresa, abre os braços, aceita a confraternização com Adriano, vai abraçá-lo.

— Não guardo rancor. O que passou passou.

Adriano agora sorri, ainda surpreso, incrédulo, é como se visse um fantasma — o homem que êle procurara tanto estava ali diante de seus olhos. Também é sensível à reconciliação, abraça o antigo inimigo, procura explicar as razões da mudança de atitude.

— Eu tinha raiva mesmo era do coiteiro. Ele é que foi perverso. Vocês estavam na vida de vocês mesmo. Eu compreendo. Se eu achasse aquele coiteiro, agora, ele ia ver.

Zé Sereno está mais animado. Puxa o antigo volante para o lado, oferece-lhe uma batida, Adriano aceita, os dois bebem, começam o bate-papo. O cangaceiro intercala o diálogo com as mesmas expressões. — O que passou passou. Adriano quer explorar o terreno. Faz sondagens. Arrisca:

— O que eu queria mesmo é saber por que aquele coiteiro me mandou desviar do caminho. Você que mandou, Zé?

— De jeito nenhum, Adriano. Pra dizer a verdade, nem me lembro bem de quem era o coiteiro. Só sei que você tinha fama de delatar cangaceiro, e queria nos pegar. Os coiteiros é que diziam.

— Não é verdade, Zé. Eu vivia minha vidinha até aquele dia em que você e mais quatro me amarraram e fizeram o diabo comigo. Aí eu resolvi entrar na volante e ser contra vocês.

Zé Sereno desconversa, se desculpa, tenta recompor o passado.

— Os coiteiros às vezes falavam demais e mentiam pra gente. Sabe como é que é. A gente vivia num aperto danado, não podia descuidar. 

Uma invenção que pegou 

O almoço demora, Adriano toma a iniciativa de pedir "mais uma". Há uma surpreendente facilidade de comunicação entre o ex-cangaceiro e o ex-volante. Os dois agora recordam casos e combates. Zé Sereno quer saber se Adriano esteve na "brigada de Maranduba".

— Não, não estive, mas estava bem perto. Soube dos estragos. Vocês perderam três cabras, né?

— Perdemos, mas a volante perdeu muito mais. Morreram mais de quinze macacos. Adriano não gostou do termo "macacos". A súbita cordialidade está sob ameaça. Indaga com ar de reprovação:

— Por que vocês costumavam chamar os soldados de macacos?

— Isto quem inventou foi o Capitão. E pegou. Pra ele toda volante era macaco. Como é que você queria que a gente chamasse uns homens que estavam sempre na nossa persiga?

Adriano agora faz sinal de que concorda. Zé Sereno ganha fôlego.

— A volante é que fabricava mais cangaceiro. Está vendo aqui? — aponta para o cunhado, Marinheiro.

— Esse menino, com treze anos, teve que entrar no cangaço pra não morrer dependurado numa árvore.

A hora é de expiação de culpas. Adriano não revela o menor desejo de defender a volante. Já dissera que entrara na polícia apenas por desejo de uma desforra pessoal. Ouve atentamente Zé Sereno, faz-lhe uma confissão.

— Sabe de uma coisa, Zé? Volante e cangaço era tudo igual. Os dois atrapalhavam a vida do povo.


O almoço começa a chegar, bem à nordestina: cabidela de galinha, peixe e camarão no coco, vatapá, sarapatel. Zé Sereno senta à cabeceira da mesa. Para um ex-comandante, um lugar de destaque. Adriano vai ao bar do restaurante em busca da batida que demora. É a última, "para abrir o apetite". Volta, o grupo come, esquecido do cangaço, das "volantes"; prefere elogiar as virtudes dessa cabidela de galinha, as qualidades do peixe, as virtudes do coco, a substância de um vatapá, um sarapatel.

Chega a hora das despedidas. O volante toma a iniciativa:

— Zé Sereno, espero agora você na minha casa.

— Não, Adriano, você é que vai lá em casa.

— Mas eu tenho prazer em receber você, Zé. 

Mas Zé Sereno ainda teme uma traição.
— Lá, não. Lá eu não vou.

A custo Zé Sereno revela por que recusa o convite:

— Lá no bairro dele tem dois cabras que querem fazê a minha pele.

Adriano continua a insistir, mas o ex-cangaceiro já decidiu: não vai mesmo. Afinal, o ex-volante cede na discussão, que se prolonga por alguns minutos. Faz uma promessa:

— Está bem, Zé Sereno. Vou lá comer um sarapatel quando você matar aquele porco que está cevando no fundo do quintal.

O instinto venceu 

Longe de Adriano, já de volta a casa, Zé Sereno se dispõe a revelar os nomes dos homens que querem "fazer a sua pele". Um, o ex-volante Euclides Marques, suposto matador de Maria Bonita. Ele fica mais tranqüilo ao ser informado de que Euclides cumpre pena num presídio de São Paulo, por ter assassinado a esposa. E o outro nome? Zé Sereno faz certo mistério, mas acaba confessando que é mesmo o do ex-volante Adriano. Nesse instante o instinto do cangaceiro ressurgiu no pacato zelador de colégio.

— Sabe? A gente precisa ter certo cuidado. A pior coisa é traição.

FIM


Lampião e seus cangaceiros adoravam fotografias. No grupo estão os sobreviventes de Angico: Sila (segunda à esq.) , Zé Sereno (terceiro) , Criança (quinto) e Marinheiro (sexto).

FONTE DA MATÉRIA:
Revista Realidade de Janeiro de 1969

Reportagem de Cristina Mata Machado e Humberto Mesquita.
Fotos de Jorge Bodanzky

Facsímiles cedidos por Geziel Moura, de revista de sua coleção particular.

FIM!

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DESCRIÇÃO DA MORTE DO PATRIARCA DO JUAZEIRO

Material do acervo do escritor Junior Almeida

Pegando o gancho na postagem de Geraldo Júnior, aproveito e posto também nesse grupo:

Lourival Marques era um caixeiro viajante que estava em Juazeiro do Norte naquele 20 de julho de 1934, quando o Padre Cícero Romão Batista fez sua "última viagem", pouco antes das 7 horas da manhã. Lourival escreveu tudo que presenciou. Seu relato foi publicado em alguns jornais da época. Texto esse que disponibilizo aqui:

"Acordei pelo tropel de gente que corria pela rua. Fiquei sem saber a que atribuir aquelas carreiras insólitas. Quando cheguei à janela tive a impressão de que alguma coisa monstruosa sucedia na cidade. Que espetáculo horroroso, esse de milhares de pessoas alucinadas, correndo pelas ruas afora, chorando, gritando, arrepelando-se... Foi então que se soube... O Padre Cícero falecera... Eu, sem ser fanático, senti uma vontade louca de chorar, de sair aos gritos, como toda aquela gente, em direção à casa desse homem, que não teve igual em bondade e nem teve igual em ser caluniado.

Um caudal de mais de 40 mil pessoas atropelava-se, esmagava-se na ânsia de chegar à casa do reverendo. O telégrafo transbordava de pessoas com telegramas para expedição, destinados a todas as cidades do Brasil. Para fazer ideia, é bastante dizer que só em telegramas, calcula-se ter gasto alguns contos de réis. Logo que os telegramas mais próximos chegaram ao destino, uma verdadeira romaria de dezenas de caminhões superlotados, milhares e milhares de pessoas a pé, marcharam para aqui. Joaseiro viveu e está vivendo horas que nem Londres, nem Nova Iorque viverão jamais... O povo, uma onda enorme, invadiu tudo, derrubando quem se interpôs de permeio, quebrando portas, passando por cima de tudo. Pediu-se reforço à polícia, mas o delegado recusou, alegando que o Padre era do povo e continuava a ser do povo.

Arranjaram, no entanto, um meio de colocar o cadáver exposto na janela, a uma altura que ninguém pudesse alcançar e, durante todo o dia, várias pessoas encarregaram-se de tocar com galhos de mato, rosários, medalhas e outros objetos religiosos, no corpo, a fim de serem guardados como relíquias. Milhares de pessoas continuavam a chegar de todos os pontos, a pé, a cavalo, de automóvel, caminhão, de todas as formas possíveis.

Quatro horas da tarde... Surge no céu o primeiro avião do exército. Depois outro. Lançam-se de ponta para baixo, em voos arriscadíssimos, passando a dois metros do telhado da casa do Padre Velho. Duram muito tempo os voos. É a homenagem sentida que os aviadores prestam ao grande vulto brasileiro que cai... Desceram depois no nosso campo, vindo pessoalmente trazer uma riquíssima coroa, em nome da aviação militar.

A cidade é uma colmeia imensa; colmeia de 60 mil almas, aumentada por mais de 20 mil, que chegaram de fora. Nenhuma casa de comércio, de gênero algum, barbearias, cafés, bares, nada abriu. A Prefeitura decretou luto oficial por três dias. O mesmo imitaram as cidades do Crato, Barbalha e outras. Todas as sociedades e sindicatos têm o pavilhão nacional hasteado a meio-pau com uma faixa negra, em funeral".

Fonte: facebook
Página: Junior Almeida

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13 fevereiro 2016

ZABELÊ, MEU TIO CANGACEIRO

Por Rangel Alves da Costa*

Manoel Marques da Silva, filho de Antônio Marques da Silva e Maria Madalena de Santana (Mãe Véia), alcunhado de Zabelê no bando de Lampião, era meu segundo-tio, pois irmão de minha avó paterna Emeliana Marques. Rapazote ainda, quase na idade de menino, influenciado pelas andanças do bando do Capitão pela região de Poço Redondo, no sertão sergipano, eis que um dia decide seguir no rastro dos homens do sol, da lua e da catingueira. Abandonou a família para nunca mais retornar ao lar, ainda que muito andasse em séquito pela região e redondezas. Estava presente na Gruta do Angico quando Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram chacinados pela volante alagoana comandada pelo tenente João Bezerra, porém saiu ileso. Mas desse dia em diante ninguém mais teve notícia de seu paradeiro. Com o nome de pássaro, pois Zabelê é nome de bicho que voa, talvez tivesse voado para uma desconhecida distância. Durante muitos anos os seus familiares de Poço Redondo entrecortaram regiões do país no seu encalço, em busca de seu paradeiro, mas sem jamais reencontrá-lo. Voou, Zabelê voou. Arribou para sempre e nunca mais retornou. Hoje é pássaro somente na história e na recordação.

Poeta e cronista

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A COLUNA PRESTES NÃO TEVE FOCO COMUNISTA, APESAR DE MARCHA REVOLUCIONÁRIA COMO ASSIM FICOU CONHECIDA PELA HISTÓRIA.

Por Luiz Serra, Portal UNNO

Prestes e os companheiros chegaram a enfrentar em breve recontro o bando de Lampião na trágica frente nordestina. (Frederico Pernambucano).

Foi uma rebelião nacional, iniciada em 1925 no R. G. do Sul, tendo por líderes civis e militares, tais como Osvaldo Aranha, Juarez Távora e Luiz Carlos Prestes, que se insurgiram contra o governo Arthur Bernardes, e a política “de convenção”, que fazia eleger alternadamente um presidente da República mineiro e outro paulista. Era então a política do “café-com-leite”.


A reação na passagem por São Paulo, com a morte de Joaquim Távora, em que grupos de militares paulistas, liderados pelos generais Isidoro Dias Lopes e Miguel Costa e também pelos tenentes Eduardo Gomes, Joaquim Távora e Juarez Távora, fugiram da capital paulista em razão de bombardeios sofridos, e se uniram, no estado do Paraná, às tropas gaúchas, que vieram da cidade de Alegrete, onde o movimento teve início. Os gaúchos tinham como líderes: Siqueira Campos, João Alberto e Luis Carlos Prestes.

Na prática, a liderança foi do general Miguel Costa, e Prestes cuidava do estado-maior da Coluna, e inspirou o nome da gigantesca tropa de cavalarianos insubmissos. A inspiração dessa marcha de revoltosos fora a epopeia dos Tenentes, na denominada rebelião do Tenentismo de 1922. Cavalgaram Brasil adentro em quatro grandes alas de 350 homens, comandadas por Siqueira Campos, João Alberto Lins e Silva, Djalma Dutra e Cordeiro de Farias.

A Coluna atravessou o país, arregimentou mais de mil e 400 milicianos, entre policiais e soldados desertados, e precisava de montarias e alimentação, do que dependia de contribuição, e até em forma de apresamento de animais de fazendeiros pelo caminho.

Ao adentrar o Nordeste, a Coluna se transformou numa marcha desesperante, pois houve resistência armada em vários lugares, inclusive ameaça de confronto com os terríveis cangaceiros de Lampião. Até Padre Cícero constituiu uma frente de jagunços armados, o Batalhão Patriótico, para combater a Coluna Prestes.

Num desses recontros houve a chacina de Piancó, quando dezenas de sertanejos, liderados pelo padre Aristides, fizeram fogo contra uma das alas da Coluna, tendo inicialmente tombado quatro revoltosos de Prestes. Audácia suicida de Aristides, pois a ala de João Alberto veio em reforço à de Siqueira Campos atacada, e foi um morticínio de todos os 30 resistentes de Piancó. O padre Aristides foi esquartejado e teve a genitália decepada e jogada aos cães.

Mais confrontos na Bahia quando da reação de coronéis locais fizeram a Coluna volver a marcha pelo sertão de Alagoas, fazendo os revoltosos saírem de novo pelo Piauí, não sem antes trocar tiros com o bando de Lampião.

Prestes após a dispersão da Coluna redigiu um manifesto induzindo a que a base de propósitos da revolta tivesse uma conotação marxista. Mas tal intenção foi repelida por Juarez Távora, que redigiu a carta resposta de princípios democráticos. Prestes então seguiu para a Argentina, e depois entrou para o Partido Comunista, e, voltando da Rússia, alimentou a famosa Intentona Comunista, de triste memória nacional.

No conteúdo político, a Coluna Prestes traduziu um movimento político-militar brasileiro existente entre 1922 e 1953 e ligado ao tenentismo, de insatisfação com a República Velha, pugnavam a exigência do voto secreto, a defesa do ensino público e a obrigatoriedade do ensino secundário para toda população. Fez redundar a Revolução de 1930, e todo o regime de índole populista de Getúlio Vargas.

Há quem afirme que a relevância da carta de princípios da Coluna Prestes influiu os ditames sociais por toda a história política brasileira até os nossos dias.

Fonte: facebook
Página: Luiz Serra

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ONTEM, 12 DE FEVEREIRO COMPLETARAM 13 ANOS DO FALECIMENTO DE WILSON RIBEIRO FILHO DOS CANGACEIROS SILA E ZÉ SERENO


Hoje, dia 12 de fevereiro de 2016, completam-se treze anos de falecimento de meu primeiro esposo, Wilson Ribeiro de Souza, filho do casal de ex-cangaceiros Zé Sereno e Sila.

Wilson faleceu no dia 12/02/2003, vítima de ataque cardíaco e derrame cerebral, em nossa casa, em Rio Claro-SP e está enterrado no Cemitério Evangélico no jazigo de minha família.

Saudades!

Suzi Ribeiro Campos
Esposa

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CAUSOS DO CANGAÇO: BRIGA DE CANGACEIROS ACABA EM ROSTO COLADO

Do acervo do pesquisador Raul Meneleu Marcarenhas

No sexto centenário da morte de Lampião a Empresa Sergipana de Turismo e a Prefeitura de Canindé de São Francisco programaram um encontro de estudiosos do cangaço, o I Seminário sobre a História do Cangaço.

Na Grota do Angico foi celebrada missa pelos 60 anos da morte de Lampião, Maria Bonita e nove "cabras". 

O padre Eraldo Cordeiro, nesse episódio, tascou a frase "Covardes não entram para a história", isso diante de autoridades, admiradores da saga e dos sobreviventes desse mais famoso embate, os cangaceiros Manoel Dantas Loiola, mais conhecido como Candeeiro e Sila e o volante Elias.


Elias


Pois bem, de volta à Canindé de São Francisco, no debate de encerramento do I Seminário sobre a História do Cangaço, os mesmos personagens fomentaram a maior polêmica desse evento.

Candeeiro

Candeeiro comentou que, dias antes do episódio da Grota do Angico, Lampião havia lhe confidenciado que pretendia deixar o cangaço. 


Sila


Sila, até então a mais tranquila da mesa, falou em seguida e disse: "Não gosto de participar de mesa-redonda para não ouvir coisas que não são bem verdades. Lampião não contaria um segredo desses para um homem que não era de sua maior confiança", disse, em referência a Candeeiro.

Candeeiro, já com 83 anos, com os olhos brilhantes que lhe valeram seu apelido, retrucou, garantindo que a memória estava firme: "Eu estou com tudo certo". 


Expedita

Expedita Ferreira, filha de Lampião e Maria Bonita, apaziguou: "Não vale a pena essa discussão". 

Pelo jeito não valia. O debate terminou e, minutos depois, lá estavam Sila e Candeeiro dançando de rosto colado no salão de Canindé de São Francisco. 

BASE DO TEXTO:
Casslano Elek Machado - Jornalista
Folha de São Paulo 05 de agosto de 1998



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FAROESTE NO CHINELO

Por: Luana Sena 26 de outubro de 2015
FacebookTwitterGoogle+ - Acervo de Leandro (Foto: Mauricio Pokemon)

No escritório de um médico, relíquias e histórias de sangue e sertão provam que Lampião está mais vivo do que nunca.

Leandro Cardoso é um cardiologista de meia idade cujo hobby predileto é estar entre os livros. Não são títulos de medicina, nem poesia, tampouco ficção. O que atrai o médico são histórias sanguinárias de um passado recente do nordeste brasileiro: livros, punhais, cartucheiras, chapéus e outros pertences originais ocupam quatro armários do chão ao teto. Em um dos cômodos de seu apartamento, na zona leste de Teresina, Virgulino Ferreira, o rei do cangaço, está mais vivo do que nunca.

A paixão de Leandro pelo tema começou aos 12 anos, quando ganhou de presente do avô o livro “Lampião, cangaço, nordeste”. As marcas na dobradura dão pistas sobre o tempo, mas ele não é o mais antigo – nem seria o primeiro – livro daquela coleção. De lá para cá, Leandro seguiu lendo e pesquisando tudo o que diz respeito ao cangaço.

Leandro trabalhou por dez anos em São Paulo, “a capital mais nordestina de todas”, diz o médico. No consultório, conversa vai, conversa vem, vez por outra ele encontrava descendentes de cangaceiros – primos, irmãos, filhos – ou mesmo dos volantes (Força Volante era a tropa do governo montada para combater os cangaceiros nos anos 1930). “Eu fui médico da dona Mocinha, irmã de Lampião”, relembra. Cada personagem descoberto era como uma peça que faltava no quebra-cabeça do pesquisador.

Em maio de 2002, Leandro recebeu uma ligação inesperada de Aracaju. 

A voz do outro lado da linha disse sem cerimônia:

– A cabeça do vovô está aqui em casa, você gostaria de ver?

Era Vera Ferreira, neta de Lampião. Pegou o primeiro avião. Tornou-se o segundo médico a confirmar que Lampião não era “lombroso” – a expressão remete ao médico italiano, Cesare Lombroso, criador da teoria de que traços físicos podem denunciar um perfil criminoso. “Orelha de abano, fronte fugidia, caninos possantes, eram algumas das características de um lombroso”, explica o médico. A teoria caiu em desuso, mas a curiosidade dos pesquisadores sobre Lampião permaneceu porque ninguém nunca tinha tido a oportunidade de examinar tão profundamente essas características.

Leandro Cardoso (foto: Mauricio Pokemon)

Lampião e mais nove integrantes de seu bando foram mortos em 1938 por tropas da polícia na Gruta do Angico, sertão sergipano. As cabeças foram decepadas e permaneceram por anos no Instituto Nina Rodrigues, na Bahia, até a família de Virgulino conseguir na justiça o direito de enterrá-la, no cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador. Mas, o início dos anos 2000 trouxe fortes chuvas a região, e a defesa civil obrigou a retirada das urnas do local. Elas foram entregues novamente as famílias. “Como eu sou amigo da Vera e ela sabia que eu estava escrevendo um livro, me ligou com essa proposta e eu nem pensei duas vezes”.

O exame resultou no livro “Lampião: a medicina e o cangaço – aspectos médicos do cangaceirismo”, escrito por Leandro em parceria com Antônio Amaury Corrêa de Araújo, umas das maiores referências em cangaço no Brasil. “Eu pude examinar o occipital dele por dentro e Lampião não era um lombrosiano nato”, diz o médico. O livro traz ainda outros diagnósticos sobre a figura do cangaceiro mais famoso da história, como a cegueira no olho direito. “Se você pegar a literatura, cada um diz uma coisa: catarata, glaucoma, mas tudo da boca pra fora”, afirma o pesquisador. “Durante um combate com uma volante, em 1925, uma bala pegou num espinheiro que estava perto de Lampião e ele foi atingido”, explica Leandro. “A causa mais comum de cegueira no sertão é trauma”, continua. “Se ele tivesse feito um transplante de córnea, provavelmente voltaria a enxergar, mas naquela época não existia”. Lampião virou um cego funcional e teve que aprender a ser canhoto quase aos 30 anos de idade.

Na prateleira, o livro escrito por Leandro divide espaço com mais de 100 títulos. Há ainda uma videoteca com filmes como “O cangaceiro”, de Lima Barreto (1953), “Nordeste sangrento”, com o estreante ator Paulo Goulart (1963) e “Baile perfumado”, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira (1996). Entretanto, o filme mais precioso ali é um DVD um tanto caseiro com 11 minutos de imagens de Lampião e seu bando, registrados pelo sírio-libanês Benjamin Abraão na década de 1930. “Lampião aceitou que o libanês os filmasse porque ele era secretário de Padre Cícero”, explica Leandro. O filme ficou por anos preso nos porões da ditadura Vargas e só se conhecia, afinal, seis minutos de gravação. “Benjamin passou meses lá com os cangaceiros, é provável que existissem horas e horas de gravação, mas boa parte do filme foi perdida ou danificada”. Foi Leandro e o cineasta Wolney Oliveira que encontraram, na cinemateca brasileira em São Paulo, mais cinco minutos inéditos de imagens.

Parte do acervo do pesquisador (foto: Mauricio Pokemon)

Além do acervo literário e visual, o médico também guarda peças originais do vestuário dos cangaceiros: chapéu, bornais floridos, cartucheiras, alpargatas e punhais – um deles foi presente de Moreno, considerado um dos cangaceiros mais valentes do bando de Lampião. “Parando minha recordação, eu ainda matei 21”, diz Moreno, aos 99 anos, no documentário “Os últimos cangaceiros”, lançado este ano no Brasil. Leandro conheceu Moreno e a mulher, Durvinha, cujas histórias de vida daria um filme. E deu! (Leia abaixo!)

Leandro fala de cada detalhe da indumentária do cangaço com um misto de admiração e êxtase. Ele sabe de cor as falas de Lampião no filme mudo. Tem na mente as datas dos combates, faz viagens frequentes para regiões que foram marco do “banditismo social” brasileiro e refuta pesquisadores. Para ele, um dos maiores equívocos é confundir o cangaceiro com a figura de um bandido. “O código penal da época era surra, bala e punhal”, explica. “Tratar o cangaceiro como bandido é um erro porque esse era o modus operandi daquela época”, defende. “A polícia agia assim e o coronel também”.

O médico vê o cangaço como uma manifestação contra a colonização, “um irredentismo brasileiro”, diz, citando a teoria de Frederico Pernambucano de Mello. “Cada vez mais eles foram empurrados pro sertão porque queriam viver sem lei nem rei”, afirma. O que os diferencia do bandido comum? “O bandido tende a se ocultar, viver na surdina. O cangaceiro não. Ele não se acha bandido porque tem um código de ética muito próprio. Você acha que um cara que se veste daquele jeito quer ficar oculto?”

Relíquias do irredentismo brasileiro (foto: Mauricio Pokemon)

O estilo cangaço também é outro ponto de equívoco sobre o que se prega a respeito de Lampião. Ao contrário do que vemos nas imagens da época, todas sem cores, as roupas não eram cinza, muito menos de estampa camuflada. “Parecia alegoria de carnaval”, brinca o pesquisador. “A roupa é espalhafatosa, mas nada daquilo é supérfluo”, explica enquanto mostra a forma correta de se abotoar um bornal. “Eles usavam quatro bornais em volta do ombro. O cara carregava mais de 30 quilos e podia rolar no chão que não saia nada do corpo”. Muitos desses detalhes estão no livro “A estética do cangaço” (Frederico Pernambucano de Mello), que traz ainda curiosidades sobre lenços, perfume francês, óculos alemães e outros delírios de consumo do vaidoso Lampião. “Era tudo muito bem feito, costurado em máquina, tinha uma preocupação visual”, diz o médico. “O faroeste americano não chega nem perto”.

Em outubro deste ano, algumas dessas peças vão estar expostas no 4º Congresso Nacional do Cangaço que acontece pela primeira vez no Piauí, na cidade de São Raimundo Nonato. Organizado pela SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos Sobre o Cangaço), o evento vai reunir (de 27 a 31) os maiores pesquisadores brasileiros sobre o tema – Vera Ferreira, neta de Lampião, confirmou presença para uma palestra. Leandro, que coordena o evento, também vai ministrar palestra e lançar nova edição de seu livro – serão cinco dias entregue a histórias de sangue e sertão pra faroeste americano nenhum botar defeito. “A gente não acredita no que a gente tem”, diz o pesquisador intrigado com o fato de Hollywood vender há anos Billy the Kid como o maior fora-da-lei de todos os tempos. “Ele matou três pessoas! Três! Agora veja Lampião”, propõe. “Se Tarantino visse um negócio desse ficaria louco!”.
Os últimos cangaceiros

 Ninguém podia imaginar que o pacato casal Jovina Maria da Conceição e José Antonio Souto, ambos com mais de 90 anos, tinham um passado tão misterioso quanto impressionante. Por quase cinquenta anos eles esconderam dos filhos um segredo revelado somente no século XXI: eles foram cangaceiros integrantes do bando de Lampião.

Os pesquisadores nunca chegavam a um consenso sobre o paradeiro daqueles que escaparam ao confronto sangrento em Angico, no Sergipe – alguns apontavam Ceará e Maranhão como possíveis destinos dos cangaceiros. Outros afirmavam que eles haviam morrido. Porém, escondidos atrás dos nomes falsos sobre os quais refizeram suas vidas em Belo Horizonte, estavam, na verdade, Antônio Ignácio da Silva, o Moreno, e Durvalina Gomes de Sá, a Durvinha.

Ele, cearense, e ela, pernambucana, estavam no interior do Ceará quando souberam da morte de Lampião e dos demais companheiros, em 1938. Disfarçados de retirantes, seguiram rumo ao sul, mudaram de nome e fizeram um pacto de nunca contar a ninguém o segredo.

Lançado em 2014, filme mostra casal que pertenceu ao bando de Lampião (foto: divulgação)

A história teria mesmo ido ao túmulo, não fosse o fato de, pelo caminho, os cangaceiros terem deixado um filho, aos três meses de vida, aos cuidados de um padre em Tacaratu, no interior de Pernambuco. Acometido por uma doença em 2006, Moreno resolveu revelar a família o desejo que tinha de reencontrar o primogênito. Os filhos puseram-se a procurar o irmão, em Tacaratu, quando se depararam com a surpresa: “Ah, o filho dos cangaceiros?”

Com a revelação, pesquisadores de todos os cantos voaram para colher de perto os novos relatos e as recordações de Moreno e Durvinha – sabe-se que ela foi, num primeiro momento, mulher de Virgínio, cunhado de Lampião. Com a morte dele, Moreno assumiu Durvinha – era proibido mulher sozinha no bando.

A história virou enredo do documentário “Os últimos cangaceiros”, produzido por Wolney Oliveira. É o primeiro longa-metragem documental sobre o cangaço e, no seu lançamento mundial, em 2014, foi premiado em festivais de cinema no México, Havana e Bolívia. Moreno e Durvinha não chegaram a ver o filme pronto – ela morreu em 2008, ele, centenário, dois anos depois.

Além de relatos dos ex-cangaceiros, filhos, parentes (e o reencontro com Ignácio, o filho mais velho, deixado no Pernambuco), o longa traz cenas inéditas das gravações feita pelo libanês Benjamin, nos anos 1930 (aquelas, recuperadas por Leandro e Wolney na cinemateca). A produção conseguiu colorir frame a frame algumas imagens, que, além de modernizar, dão uma ideia mais realista da estética do cangaço. Outro trunfo são as legendas nas falas de Lampião e seu bando: uma equipe especialista foi contratada para decifrar o que os cangaceiros falavam no filme mudo. Wolney colocou Moreno e Durvinha para se reverem nessas imagens – o resultado, emocionante, está no documentário.

Virgulino Ferreira, o rei do cangaço, está mais vivo do que nunca (Foto: Mauricio Pokemon)

http://www.revistarevestres.com.br/reves/revestemdetudo/faroeste-no-chinelo/

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LAMPIÃO HUMILHA A VOLANTE POLICIAL - 1 POLICIAL MORTO E 2 FERIDOS NA FAZENDA FAVELA.

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