31 de ago. de 2019

FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO LANÇA LIVRO COM DADOS INÉDITOS SOBRE LAMPIÃO


Por Mariana Mesquita em 29/01/19

Considerado o maior especialista em Cangaço do mundo, pesquisador diz que o atirador que matou Virgulino Ferreira não é o noticiado pela imprensa da época

Existem centenas de livros escritos sobre Virgulino Ferreira, o Lampião - que morreu no dia 28 de julho de 1938, após passar 21 anos percorrendo o interior do Nordeste, e desde então se transformou em um dos símbolos mais emblemáticos da História do Brasil. "Apagando o Lampião: vida e morte do Rei do Cangaço" poderia ser mais um nessa longa lista - mas consegue a proeza de trazer fatos novos sobre o tema, inclusive apontando quem (e como) foi o responsável pela execução do cangaceiro.

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Escrito por Frederico Pernambucano de Mello, que se dedica a pesquisar o Cangaço desde os anos 1960 e é considerado a maior autoridade no assunto, "Apagando o Lampião" traz outras informações inéditas que por si só justificariam a escritura da obra, que paralelamente registra toda a trajetória deste verdadeiro gênio militar (para alguns, herói; para outros, bandido sanguinário).Embora tenha sido publicado no ano passado, o livro deve ser lançado oficialmente em março, na cidade de Maceió (AL).

"Há muitas biografias sobre Lampião, e tenho a pretensão de conhecer a maioria, mas verifiquei que havia alguns aspectos virgens de um relato confiável. Por isso, resolvi escrever", explica o autor. Estes quatro pontos-chave que representam novidades são muito importantes para entender a história como de fato se passou. 

Após duas décadas de tentativa, Frederico Pernambucano de Mello ouviu o relato do verdadeiro executor de Lampião - Crédito: Acervo Frederico Pernambucano de Mello.

A "autoria" da morte de Lampião havia sido noticiada pela imprensa em 1938, apontando como responsável Antonio Honorato da Silva, que era guarda-costas do aspirante Francisco Ferreira de Mello, um dos encarregados pelo cerco à grota de Angico, onde os cangaceiros estavam escondidos. Mas Frederico descobriu que o verdadeiro autor do disparo fatal contra Lampião havia sido Sebastião Vieira Sandes, o "Santo", que também era guarda-costas de Francisco e antes de ingressar na volante, tinha convivido com o cangaceiro por muitos anos, sendo seu "coiteiro" e, inclusive, tendo chegado a costurar peças para o bando junto com o próprio Lampião.

A entrevista que Sandes concedeu a Frederico, durante mais de dez dias, foi longamente aguardada. O historiador sonhou com esse momento por mais de duas décadas, tentando convencer o entrevistado através de conhecido em comum e chegando a visitar Sandes em Maceió e em São Paulo.

Um dia, após ter recebido um diagnóstico de aneurisma inoperável, ele procurou Frederico e contou que Lampião não morreu em combate, e foi executado de cima para baixo, com um único tiro, enquanto tomava uma caneca de café. A bala bateu na lâmina do punhal que estava no cinto do cangaceiro e causou um prolapso de vísceras, expondo todas as suas tripas. "Esse punhal está guardado no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, e o relato bate com o laudo pericial realizado por um especialista da Polícia Federal, Eduardo Makoto Sato", frisa Frederico Pernambucano de Mello.

Outro ponto interessante e que amplia o olhar humano sobre a trajetória de Lampião é a divergência com José Alves de Barros, o Zé Saturnino, que entrou em confronto com o jovem Virgulino e precipitou sua entrada no cangaço. Em uma entrevista realizada em 1970 e mantida inédita até o momento, Frederico Pernambucano de Mello ouviu relato de que ambos eram amigos de infância. A briga só começou quando Saturnino se casou com uma moça da família Nogueira, inimiga dos parentes de Lampião. "Virgulino não perdoou isso", aponta o autor, que guardou estas informações por mais de quatro décadas. "Sou o tipo de pesquisador que trabalha com informações a longo prazo", afirma.

Livro 'Apagando o Lampião' será lançado oficialmente em março, em Maceió (AL) - Crédito: Divulgação.

O livro registra ainda detalhes sobre as relações de Lampião com as autoridades da época: sua ida para a Bahia foi acordada com o Chefe de Polícia de Pernambuco, Eurico de Souza Leão. "Este fato foi mantido em sigilo por vários anos, até que me foi contado pelo oficial executor das ações, Audálio Tenório de Albuquerque", aponta. Evidentemente, não pegaria bem para o governo pernambucano admitir que "exportou" o cangaceiro para o estado vizinho. 

Outro detalhamento inédito diz respeito ao acordo feito entre Lampião e Farnese Dias Maciel, irmão de Olegário Maciel (governador mineiro entre 1930 e 1933, quando morreu no poder) e filho do segundo Barão de Araguari, figura importantíssima de Minas Gerais.

Segundo o autor, Farnese tinha uma rixa com a família Borges, e queria contar com o bando Lampião para agir em seu favor. No momento em que foi executado, o cangaceiro estava recrutando mais de cem homens, que iriam se somar aos quase 150 de seu bando (formado por um grupo principal com 22 membros e mais dez subgrupos com oito a doze homens, que atuavam nos mais diferentes pontos do Sertão nordestino).

"Os planos de ir para Minas eram conhecidos, mas nenhum biógrafo até o momento havia tido o cuidado de investigar quem estava convidando Lampião", aponta. Ainda de acordo com Frederico, o Cangaço havia exaurido o interior do Nordeste, e Lampião estava em busca de outras localidades com maior capacidade contributiva para proceder aos saques.

Serviço:

Livro ""Apagando o Lampião: vida e morte do Rei do Cangaço", de Frederico Pernambucano de Mello
336 páginas, R$ 55, Editora Global.


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26 de ago. de 2019

QUILOMBOLAS

Clerisvaldo B. Chagas, 26 de agosto de 2019
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.169

FOTO: (deolhonosruralistas.com.br).
Naturalmente o amigo, a amiga, já conhece a palavra quilombola. Mas, para quem não sabe, é bom lembrar que os quilombolas, eram negros escravos fugidos dos engenhos de cana-de-açúcar, das fazendas, dos garimpos que se refugiavam em grupos, nas matas. A palavra tem origem no tupi-guarani Cañybó e significa: “aquele que foge muito”. Existem mais de quinze mil comunidades quilombolas no Brasil. Interessante, porém, é que essa palavra é usada na burocracia, na papelada pelo reconhecimento, nas organizações, mas popularmente é nula ou tem pouco uso. Hoje são os remanescentes dos quilombolas que moram no campo, nos sítios ou mesmo em lugares que se tornaram povoados.
Em Alagoas, terra de Zumbi dos Palmares, eles estão espalhados por todo o território. São organizados pela Fundação Palmares e que agora estão entrando no Programa de Cisternas. Cidades do Sertão e Agreste onde existem as comunidades quilombolas serão contempladas com cisternas de placas com capacidade para 16 mil litros cada. Trata-se de um programa exclusivo para essas comunidades, para água de consumo e produção de alimentos. Segundo divulgação, 35 cidades serão contempladas com um todo de 219 mil cisternas. Os órgãos envolvidos são Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MDH); Ministério da Cidadania (MC); Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária, Pesca e Aquicultura de Alagoas (Seagri).
A divulgação nos permite aplaudir mais essa conquista dos descendentes quilombolas e sua central de organização. Palmeira dos Índios, Delmiro Gouveia, Olho d’Água do Casado, Estrela de Alagoas, Traipu, Craíbas e Taquarana, estão entre as 35 anunciadas. Em geral, os quilombolas de Alagoas dedicam-se à Agricultura e à Pecuária em pequenas propriedades, produzindo alimentos para eles e para nós.
A luta diária numa comunidade de descendentes, não é fácil, mas como a “união faz a força”, as lutas organizadas pelos direitos vão se materializando, nem que sejam de grão em grão.
Nada foi em vão, ZUMBI!
FOTO: (deolhonosruralistas.com.br).


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25 de ago. de 2019

O CANGAÇO EM BREJO DOS SANTOS NO REGIME MONÁRQUICO - PARTE I POR:MUNGANGA CULTURAL

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Sempre foi de notória agitação o clima na região sul cearense. No Cariri, região que de certa forma, lhe corresponde, desde seus primórdios, registraram-se disputas e conflitos, a partir mesmo do período da posse da terra, na época das Sesmarias. Muito mais conturbado, todavia, surgiu o século 19. A seca de 1877, com seu cortejo de miséria, arruinou a província do Ceará. Milhares de retirantes percorriam as estradas em demanda de vilas e cidades onde imploravam a esmola para matar a fome.

No Cariri, a despeito de ser região privilegiada, a fome fazia devastações. Morriam, diariamente, no Crato, de 12 a 16 pessoas. Os famintos não tinham força para mendigar. Às vezes, antes de recolher a esmola, caiam agonizantes, com as feições convulsas, no transe derradeiro. No meio dessa calamidade, surgiam bandos de cangaceiros que se apoderavam dos bens alheios. Os próprios retirantes invadiam as propriedades em busca de alimento. Furto, roubo, tomada de presos, assassinatos, prostituição e morte por falta de pão, eis as consequências desse flagelo.

Vários grupos de cangaceiros andavam sobre o chão do povoado de Brejo dos Santos. O flagelo começou nos fins de 1874, com o bando de Inocêncio Pereira da Silva, vulgo Inocêncio Vermelho, foragido da vila de Misericórdia (atual Itaporanga), na província da Paraíba, onde assassinara Andrelino Araújo. Perseguidos por Antônio Tomás de Araújo Aquino, irmão da vítima, passavam-se os criminosos para a Comarca confinante de Jardim. Residiam, ora no Salgadinho, do termo de Milagres, ora na povoação de Brejo dos Santos, do termo de Jardim. Gozando da proteção do Juiz Municipal de Jardim, Dr. Antônio Augusto de Araújo Lima, Inocêncio chegou a exercer funções policiais contra criminosos desvalidos, em toda zona banhada pelo riacho dos Porcos.

Logo depois, fugido da cadeia de Crato, juntou-se ao grupo de Inocêncio Vermelho, o criminoso João Calangro, natural de Milagres, onde era conhecido por João Senhorinha. Seu verdadeiro nome, porém, era João de Sousa Calangro. Ele era de estatura baixa, sardento e de cabelos cor de fogo, e não deve ser confundido com o negro João Calangro, perverso cangaceiro de Antônio Quelé, abatido no dia 27 de novembro de 1910 por companheiros seus, nas proximidades de Jati, entre a ladeira do Pacífico e a fazenda Oitis.

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Com isso, os salteadores, transformados em agentes policiais, mantinham a ordem nos povoados e prendiam os criminosos desvalidos. O banditismo político chegava ao ponto de uma autoridade regeneradora encarecer ante o Governo Provincial, os serviços que Inocêncio Vermelho tinha prestado, e pedir, ao mesmo tempo, para o bandido, remuneração por iguais serviços, ou promover a sua livrança.
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A Comarca de Jardim tornava-se um viveiro de criminosos, no qual José Ataíde Siqueira (Zuza Ataíde), Inocêncio Vermelho, João Calangro, Barbosas, Brilhantes, Viriatos, Agostinho Pereira, Pedro Simplício, Carneiro, Manuel Tomás e outros representam o papel de peixe-rei, cuja força estava na razão das façanhas. Em junho de 1876, Inocêncio foi morto na região do Poço, por Sebastião Pelado, que agia a mandado de Antônio Tomás de Araújo Aquino, irmão de Andrelino de Araújo. Morto Inocêncio, João Calangro assumiu a chefia do grupo, ao qual se incorporou Antônio Vermelho, irmão de Inocêncio, a fim de liquidar Sebastião Pelado, que, por sua vez, formava outro grupo. 

A luta entre esses bandos rivais, cuja zona de operações se estendia ao território paraibano, atingiu seu clímax quando Dinamarico e José Pombo Roxo, do grupo de Pelado, eram mortos por João Calangro e Gato Brabo, e Manuel de Barros, do séquito de Calangro, foi morto por Pelado. Naqueles velhos tempos, o Brejo era o lugar preferido pelos bandoleiros que infestavam o Cariri, por motivo de suas condições naturais. No meado de 1876, procedente da vila de Várzea Alegre, ali se encostou o facínora Luís de Góis, acompanhado de Zuza Ataíde.

Dentro da povoação de Porteiras, os dois grupos se defrontavam e travavam forte tiroteio, morrendo na luta José Roberto, que ali se reunira com Pelado. O morto, famoso sicário, vivia sob a proteção do capitão José Mateus Pereira da Silva, morador na comarca de Vila Bela, da província de Pernambuco. O capitão José Mateus exigia de Sebastião Pelado a orelha de João Calangro, ameaçando-o de morte caso não se desincumbisse logo a tarefa. Para agravar ainda mais a situação dos habitantes da região, forças irregulares do capitão José Mateus chegaram ao Brejo, em perseguição ao grupo de Calangro. Num encontro entre os dois grupos, Sebastião Pelado recebia mortal ferimento, enquanto João Calangro, sabendo do estado do capitão José Mateus em Porteiras, ia até a povoação, no dia 02 de agosto de 1877, e lá diria-lhe toda sorte de impropérios e ameaças por espaço de dez horas.

O capitão José Mateus seguia com destino ao Pajeú, região baluarte dos Pereiras, e de lá trazia mais de cem homens, encontrando-se entre eles grande número de delinquentes. O 2° suplente de Juiz Municipal de Jardim, capitão Juvenal Simplício Pereira da Silva, sobrinho legítimo de José Mateus, assumia o exercício e autorizava a Força de Mateus a capturar João Calangro. A Força era divida em três grupos. Seguia um para Brejo dos Santos, outro para Missão Velha, e outro, comandado por Mateus e seus genros Galdino Alves de Araújo Maroto e Manuel Pereira da Silva, para Milagres.

Em 15 de agosto de 1877, o grupo comandado por Mateus assassinava a Manuel Valentim e espancava barbaramente a Trajano de tal, pelo simples fato de agasalharem o grupo de Calangro. A Força pernambucana, a pretexto de perseguir Calangro, praticava uma série de delitos. O tenente Alfredo da Costa Weyne, que se achava em Milagres, deliberava por cobrança a tais atrocidades. Aceitava, porém, a sugestão do Dr. Antônio Augusto de Araújo Lima, que julgava mais acertado enviar Balduíno Leão, amigo de Galdino Maroto, a fim de encontrar uma solução honrosa.

Balduíno, amigavelmente, conseguia que dez homens de Mateus se incorporassem à Força de Weyne, o que ocorria no sítio Bela Vista, distante meia légua de Milagres. De volta de sua excursão, os Mateus chegavam a Milagres no dia 23 de agosto, em número de 40, depois de serem cometido as maiores violências contra sertanejos indefesos. A permissão dada ao capitão Mateus, para, com Força irregular, perseguir os Calangros, criava péssimo precedente e aumentava a insegurança individual na região. Os grupos de Mateus preocupavam sobremaneira as autoridades cearenses. Um dos grupos tinha por comandante a José Rodrigues e o outro a Vila Nova, ambos conhecidos assassinos. 
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No dia 29 de agosto, o tenente Weyne recebia requisição dos Juízes de Direito de Barbalha e Crato, cujas cidades estavam ameaçadas de ser assaltadas por mencionados grupos. A exemplo dos bandos de Mateus formavam-se outros grupos que se diziam gente do aludido Capitão, mas que visavam ao roubo e ao furto. O sul cearense vivia dias incertos. Além dos Calangros, operavam os Viriatos na Boa Esperança e os Barbosas no Salgadinho. 

À parte, mas sob os comandos de João Calangro, havia surgido, em Milagres, o grupo dos Quirinos, chefiados por três irmãos, o mais velho dos quais se chamava Quirino. Agiam também, sob a proteção de Calangro, Jesuíno Brilhante (Jesuíno Brilhante de Melo Calado) e Gato Brabo, os dois últimos também no comando de grupos. Por conveniência, esses bandos agiam separadamente. Havia, entre eles, porém, um “tratado de aliança defensiva e ofensiva de sorte que, quando receavam alguma conspiração, reuniam-se imediatamente, tomando João Calangro o comando gera”. João Calangro acabara por expulsar os Mateus do Ceará. As populações caririenses responsabilizaram o capitão Mateus pela quase extinção de gados. E com isso, passavam a confiar em João Calangro.

Essa confiança “subiu ao ponto de desejar-se pelos povoados, sobretudo em dias de feira, a presença de João Calangro para garantia daquilo que cada um trazia ao mercado publico. Ultimamente povoados, senhores de engenhos e fazendeiros disputavam, como ainda disputam, à porfia, a sua presença sempre que sabem que se aproxima algum grupo de malfazejos, ou temem qualquer assalto. Por isso ele foi obrigado a aumentar o número de seus policiais... E desse modo nulificou-se entre nós completamente a autoridade publica que foi substituída por João Calangro, que entende que a ele e tão somente a ele, o Cariri deve não ter sofrido maiores desgraças” (em “Cearense”, edição de 11 de outubro de 1877). 
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Entrada da "Gruta de João Calango"
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Correspondências de Barbalha publicadas em Cearense diziam que a cidade estava "sendo garantida pelo grupo do célebre João Calangro, protegido pelas autoridades". Compunha-se o grupo de 22 homens "que trajava a casimira, notando que quase todos os outros são subordinados, pelo fará 100 homens a qualquer hora". Um dos correspondentes concluía: "Hoje é perigoso ser rico, pois o povo pobre (os bandidos) lhes hão declarado guerra de extermínio" (em Cearense, 24.02 e 17.03.1878). No Cariri, os particulares garantiam o direito de propriedade com armas nas mãos. Em Barbalha, as casas Sampaio, Santiago e outras estavam convertidas em quartéis.  

Em Constituição, de 17 de fevereiro de 1878, publicava carta de Missão Velha, na qual o correspondente afirmava que os ladrões de gado aumentavam dia a dia, e que a cadeia estava cheia deles. Carta de Barbalha, publicada na mesma edição, comunicava que o gado, a cana e a mandioca não podiam mais produzir, "porque o furto é por demais". E finalizava: "A seca é a causa de tudo".

Aliás, por toda a Província flagelada pela seca, o direito de propriedade recebia tremendos impactos. O gado, retirado para o Piauí, ao voltar para o Ceará, na Serra Grande, não conseguia atravessar a linha de salteadores. No centro da Província, outros bandos de salteadores "acometem a propriedade com a maior ostentação, dir-se-á que se proclamou entre nós o comunismo". Na vila de União, o célebre José Rodrigues, à frente de um bando, assaltava os carros nas estradas, tomava os víveres e os distribuía "como se fosse coisa sua" (em Cearense, de 22 e 27.02 e 01.03.1878).

Continua...

23 de ago. de 2019

CANGACEIROS DE FARDA - ALMAS DE LAMA E DE AÇO

Por Raul Meneleu

Na história do cangaço, não necessariamente a que retrata Lampião e seu bando, sentimos que a violência imperava naquela época e o reflexo de tal, não irradiava somente na figura dos foras da lei mas também daqueles que eram pagos pela sociedade para protege-la.

Lemos em livros de diversos autores que os soldados e seus comandantes eram também de uma ferocidade exacerbada e muitas vezes excediam em maltratar principalmente os pobres, que não dispunham de uma justiça cega, pois a que existia via tudo ao seu redor e escolhia proteger os que tinham dinheiro e poder.

Aqui e acolá fatos hediondos nos são trazidos por livros de escritores e um dos que chama atenção para isso, é um capítulo do livro ALMAS DE LAMA E DE AÇO, onde um dos mais importantes membros da Academia Brasileira de Letras, advogado, professor, político, contista, folclorista, museólogo, cronista, ensaísta e romancista; o cearense Gustavo Barroso (1888-1959), que lhe dá o título de CANGACEIROS DE FARDA, e através de sua experiência pessoal, como Secretário de Estado do Interior, no governo (1914-1916) cearense do general Benjamim Barroso (1859-1933), onde relata a violência dos policiais e a falta de preparo de alguns oficiais.

Fazendo uma comparação com os dias de hoje, podemos notar que praticamente alguns policiais continuam a ser violentos além do necessário, em todos Estados do Brasil, assim como era naquela época. Mas voltemos ao livro.

Gustavo Barroso textualmente lá no ano de 1928, quando escreveu esse livro, já dizia que “são tudo, menos polícias... E que eram organizadas por oficiais do Exército, escolhidos pelas conveniências políticas.”

Nos Estados do Nordeste brasileiro flagelados pelo banditismo, os batalhões de polícia eram chamados de Segurança. Polícia era termo considerado pejorativo. Gustavo Barroso nos conta que eles tinham o mesmo número de companhias e de praças que os do Exército, obedeciam aos mesmos regulamentos de serviço, vestiam-se com quase o mesmo uniforme, eram considerados sua reserva e segundo o autor. “tornam-se inúteis ou prejudiciais para a missão que deviam cumprir.”

Esses soldados eram recrutados geralmente entre os piores elementos da sociedade, “dão guarnição na capital, formam em parada, são revistados no dia sete de Setembro pelo governador, usam grandes galas espaventosas, fornecem capangas disfarçados para surrar jornalistas, empastelam tipografias e, na hora do perigo, derretem-se como por encanto. Conheci uma faustosa polícia dessa natureza, a do presidente Nogueira Accioly, que o deixou sozinho no dia em que o povo de Fortaleza se revoltou. Nunca houvera guarda pretoriana mais apavorante, nem comandante mais entusiasmado. Evaporaram-se aos primeiros tiros de duas dúzias de rapazes do comércio e estudantes...

Até hoje não tiveram os Estados nordestinos um homem de governo que os livrasse do ônus financeiro e moral dessas caricaturas de tropa de linha. Esses aparelhos militares policiais custam milhares de contos e são nocivos. De que forças precisa um presidente nordestino?”

Já naquela época, Gustavo Barroso já defendia um polícia inteiramente civil e não militar. Nos convida para reflexão quando diz: 

“Examinemos a questão com inteligência. O policiamento de sua capital deve ser feito pela guarda-civil. Aliás, esta existe em muitas sedes de governo. Uma companhia de estabelecimento, bem disciplinada, constituída de veteranos de boa conduta, é bastante para a guarda dos edifícios públicos, as guardas de honra e outros serviços de guarnição. Um pequeno esquadrão de cavalaria basta às rondas e escoltas. E, em lugar dos tais Batalhões de Segurança, algumas companhias volantes no interior, de infantaria montada, organizadas semelhantemente à guarda rural, tão famosa, do Canadá, e ao regimento sertanejo de S. Paulo. Homens do sertão, escolhidos a dedo, bem pagos, vestidos à maneira do sertão, montados, armados, equipados e exercitados à sertaneja. Eis ai a única tropa capaz de combater e vencer o cangaceiro. Talvez um dia essa ideia medre na cabeça dum dos administradores daquelas terras e, assim, termine a vergonha de haver polícias piores que os bandidos, provocando à revolta almas enérgicas que descambam para o crime. A ação violenta, injusta e brutal da polícia tem de ser sociologicamente computada entre as causas principais do cangaceirismo.”

Daí então Gustavo Barroso nos dá vários exemplos da sanha violenta de membros da polícia, com reportagens de jornais, e indica notícias do jornal O Ceará de 9 de Agosto de 1929:

"Espancado por nove soldados de polícia, enlouqueceu — Granja 7 — Meu marido foi barbaramente espancado por nove soldados de polícia, ficando muito doente. Depois de tamanha atrocidade, permaneceu trinta e seis horas na cadeia. Dois dias após ao espancamento, ficou louco. Chamado o medico, dr. Jacome de Oliveira, este atribuiu a perturbação mental a fortes pancadas vibradas no crânio. Pedi providências ao dr. chefe de polícia, de quem espero ação enérgica. Rosa Pereira de Lima."

Amanhã, os filhos ou parentes dessa vítima matam o responsável direto por esse espancamento, que não foi punido. Persegue-os a justiça. Eles amontam-se e tornam-se bandidos. Quem os gerou? A polícia.

Outra local da mesma folha:

"Verificou-se, sábado último estúpida cena de sangue, que teve por teatro a pitoresca vila de Guaramiranga e da qual foi vítima o trabalhador de nome João Branco da Silva, com 28 anos de idade, casado, empregado no sítio do dr. Hélio Caracas, naquela localidade." "Achava-se João Branco um pouco alcoolizado, em certa bodega do povoado, acompanhado de um colega de trabalho, quando, apeando-se do cavalo em que vinha montado, entrou inopinadamente no estabelecimento o sargento de polícia Tito, conhecido ali por militar desordeiro e de caráter atrabiliário.

João Branco, nesse momento, encontrava-se com o juízo completamente transtornado pelos vapores alcóolicos.

Ao pedido do amigo para que não mais bebesse, puxou violentamente a faca que trazia no cinto e a cravou com força no balcão, vergando-a até quebrá-la em dois pedaços. Nesse ínterim, apareceu o sargento Tito, que brutalmente agarrou a João Branco pelo braço, enquanto, dando-lhe voz de prisão, lhe encostava no ombro direito o revólver e disparava. Atingido pelo projetil, o desditoso operário conseguiu desprender-se das mãos do militar refugiando-se, em seguida, na residência do merceeiro, próxima à bodega.

Raivoso por não ter satisfeito a sede de sangue que caracteriza os assassinos, o miliciano foi à procura da sua vítima, penetrando na residência do merceeiro, a despeito dos rogos deste, que queria evitar qualquer abalo moral à sua mulher, que se achava de resguardo. Surdo aos pedidos, o violento militar arrastou a João Branco de dentro do quarto onde o mesmo estava escondido, trazendo-o, desse modo, para fora. — "Neste momento não obedeço nem mesmo aos meus superiores", foram as palavras do sargento ao ser-lhe pedida pela segunda vez a vida do operário pelo comerciante.

Sabendo, porém, que o trabalhador era empregado do dr. Hélio Caracas, o furibundo militar largou a sua presa, deixando-a retirar-se para a casa dos seus patrões. O ferido foi transportado, domingo, em automóvel, para Baturité, onde lhe foram facultados os primeiros curativos. A bala alojou-se na região torácica, não tendo sido ainda extraída.

João Branco foi recolhido, anteontem, à Santa Casa, para ser procedida esta operação. A polícia não tomou conhecimento do fato."

Outro caso que Gustavo Barroso nos traz a conhecimento deu-se em Guaramiranga que “não é uma localidade perdida no fundo dos sertões; mas a princesa da serra de Baturité, a Petrópolis de Fortaleza, com estrada de ferro próxima e estrada de rodagem, distando da capital mais ou menos cem quilômetros. O fato, eloquentíssimo, não carece comentários. Os resultados dessas violências são outras violências. No futuro, esse truculento inferior poderá ser assassinado por vingança, como há muito pouco tempo foi morto à porta de sua casa, à noite, dentro de Fortaleza, um tenente de polícia costumeiro a mandar espancar-, desfeitear e prender. 

É ainda o referido jornal que, noticiando o passamento do chefe político sertanejo Isaias Arruda, nos dá esta página viva do cangaço no Ceará: "Pesavam-lhe, como ninguém ignora entre nós, terríveis acusações de chefe de cangaço, de protetor de Lampião e seu sócio, de incendiário da ponte do rio Salgado, de vários assassinatos por ele mandados praticar friamente, na sua maior parte, para a ocultação de hediondos delitos.

Isaias morou no Cedro e Aurora em cujas localidades, com os seus irmãos, abriu varias lutas com os destacamentos locais. Ele e os seus eram tidos como valentes e, por isso mesmo, temidos. Há seis anos mudou-se para Missão Velha. Assumindo o governo o desembargador Moreira e precisando desbancar o partido democrata, começou por ali a tarefa, com a deposição, à mão armada, do coronel Manoel Dantas de Araújo, chefe do mesmo partido, empresa essa que foi confiada a Isaias Arruda, pelo então chefe de polícia, dr. José Pires de Carvalho e pelos dois filhos do presidente. Essa combinação se deu, em 1925, na própria vila de Missão Velha quando se inaugurava a estação da estrada de ferro e quando o coronel deposto recebia, com festas, o presidente do Estado e luzida comitiva que então, foi ao Juazeiro e Crato. Dada a deposição, o coronel Dantas tentou reconquistar seu posto e, então, teve com armas nas mãos, para sua defesa, os seus amigos, de Ingazeiras e Aurora, os Paulinos.

Estes, homens valentes, brancos, eram uns quinze, que formavam urna espécie de guarda para a defesa dos seus interesses, naquele pedaço do nosso sertão onde ainda não raiou o sol da justiça e onde sempre imperou o direito cio mais forte.

Isaias, que com eles mantinha relações de amizade, dada aquela atitude ao lado do coronel Dantas, passou a hostiliza-los, contando para isso não só com os seus cangaceiros como, francamente, com a força pública. Invadindo Ingazeiras certa vez à frente de bandidos e soldados, conquistou-a, roubou-lhe as mercadorias de quatro lojas e ateou fogo nas suas casas, naquele povoado. Numa emboscada, posteriormente, dirigida por José Gonçalves, delegado de polícia de Missão Velha, foi assassinado João Paulino, o chefe do bando. Depois seguiram-se os assassinatos de outros Paulinos e de três moradores seus.

Continuando a tremenda perseguição, os Paulinos restantes, com as suas famílias, mudaram-se para a Paraíba, onde, em Princesa, se sentiram garantidos sob a proteção do deputado estadual coronel José Pereira. Dois desses, passado algum tempo, vieram da Paraíba à Fortaleza.

Vieram pedir garantias ao governo para reverem os seus haveres, propriedades e gados em Aurora e Ingazeiras. O governo não lhes prestou a devida atenção, tendo eles ainda sido presos aqui pelo tenente Manoel Gonçalves de Araújo, então inspetor de veículos e cunhado de Isaias.

Não obstante isso, esses dois Paulinos conseguiram ir à sua terra, às escondidas, e lá verificaram que nada mais possuíam. Tudo que lhes pertencia, os gados, móveis, etc., haviam sido roubados!

As casas, os currais, os cercados, haviam sido devorados pelo fogo. Naquelas paragens ninguém há que desconheça estes fatos.

Agora eis que Antonio e Francisco Paulino cortaram a Isaias Arruda, o fim da sua existência."

Gustavo Barroso finaliza esse capítulo dizendo: "Os exemplos mostram que os bandidos sertanejos quase sempre procuram fazer com suas mãos a justiça que lhes negaram magistrados, policias e governos. De mim sei que, na maioria dos casos, prefiro os cangaceiros sem farda aos cangaceiros de farda. Aqueles são muitas vezes almas de aço. Estes raramente não são almas somente de lama."


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22 de ago. de 2019

NOVO LIVRO NA PRAÇA "O PATRIARCA: CRISPIM PEREIRA DE ARAÚJO, IOIÔ MAROTO".


O livro "O Patriarca: Crispim Pereira de Araújo, Ioiô Maroto" de Venício Feitosa Neves será lançado em no próximo dia 4 de setembro as 20h durante o Encontro da Família Pereira em Serra Talhada.

A obra traz um conteúdo bem fundamentado de Genealogia da família Pereira do Pajeú e parte da família Feitosa dos Inhamuns.

Mas vem também, recheado de informações de Cangaço, Coronelismo, História local dos municípios de Serra Talhada, São José do Belmonte, São Francisco, Bom Nome, entre outros) e a tão badalada rixa entre Pereira e Carvalho, no vale do Pajeú.

O livro tem 710 páginas. 
Você já pode adquirir este lançamento com o Professor Pereira ao preço de R$ 85,00 (com frete incluso) Contato: franpelima@bol.com.br 
fplima1956@gmail.com

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20 de ago. de 2019

LAMPIÃO A RAPOSA DAS CAATINGAS

 

Depois de onze anos de pesquisas e mais de trinta viagens por sete Estados do Nordeste, entrego afinal aos meus amigos e estudiosos do fenômeno do cangaço o resultado desta árdua porém prazerosa tarefa: Lampião – a Raposa das Caatingas.

Lamento que meu dileto amigo Alcino Costa não se encontre mais entre nós para ver e avaliar este livro, ele que foi meu maior incentivador, meu companheiro de inesquecíveis e aventurosas andanças pelas caatingas de Poço Redondo e Canindé.

O autor José Bezerra Lima Irmão

Este livro – 740 páginas – tem como fio condutor a vida do cangaceiro Lampião, o maior guerrilheiro das Américas.

Analisa as causas históricas, políticas, sociais e econômicas do cangaceirismo no Nordeste brasileiro, numa época em que cangaceiro era a profissão da moda.

Os fatos são narrados na sequência natural do tempo, muitas vezes dia a dia, semana a semana, mês a mês.

Destaca os principais precursores de Lampião.
Conta a infância e juventude de um típico garoto do sertão chamado Virgulino, filho de almocreve, que as circunstâncias do tempo e do meio empurraram para o cangaço.

Lampião iniciou sua vida de cangaceiro por motivos de vingança, mas com o tempo se tornou um cangaceiro profissional – raposa matreira que durante quase vinte anos, por méritos próprios ou por incompetência dos governos, percorreu as veredas poeirentas das caatingas do Nordeste, ludibriando caçadores de sete Estados.
O autor aceita e agradece suas críticas, correções, comentários e sugestões:

(71)9240-6736 - 9938-7760 - 8603-6799 

Pedidos via internet:
Mastrângelo (Mazinho), baseado em Aracaju:
Tel.:  (79)9878-5445 - (79)8814-8345

Clique no link abaixo para você acompanhar tantas outras informações sobre o livro.

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18 de ago. de 2019

LAMPIÃO, CANGACEIRO-EMPRESÁRIO BEM-SUCEDIDO.

Por Raul Meneleu

Muitas pessoas ainda hoje pensam que Lampião era um bandido pobre, talvez por não conhecerem sua verve de comerciante e empreendedor, quando rapazinho e negociava nas feiras das cidades próximas de onde morava.

Era sim, filho de uma família da classe dos humildes proprietários rurais, situada entre os ricos donos de terras, fazendeiros poderosos e de uma massa de lavradores sem terra.

Naquela época, no inicio dos anos 1900, ser um pequeno proprietário de terras tinha pouco significado, pois a pobreza atingia tanto os despossuídos como os donos de pequenas nesgas de terra. Nivelavam-se culturalmente, e seu padrão de vida pouco diferia, todos sofriam o domínio do coronel.

Às vezes, possuir uma faixa de terra era perigoso, pois quando cobiçado pelo grande latifundiário que a cercava, a pessoa corria risco de perder sua vida e isso aconteceu com a família de Lampião.

Família de Lampião

Ele nasceu no dia 4 de junho de 1898 e enfrentou as mesmas dificuldades de quase todos os seus contemporâneos que tinha a mesma condição. O que terminou por jogá-lo no cangaço.

Era homem corajoso, argucioso e treinado desde cedo para enfrentar as agruras da caatinga, pois jovem já tomava de conta da pequena criação de seu pai e depois participando da condução de mercadorias, em um pequeno empreendimento, de seu pai, ao adquirir mulas para transporte, cujo nome do empreendimento era chamado almocrevia.

Destacava-se Virgulino Ferreira em tudo que se metia, pois era um jovem empreendedor.

Essas peculiaridades pessoais ajudam a entendê-lo melhor quando enveredou no banditismo. Era um bandido que progrediu. Tornou-se grande proprietário e um homem de negócios organizado, levando-se em conta seu tipo de vida. Conta-se que no ano de 1928 associou-se ao coronel Petronilo de Alcântara Reis e comprou duas fazendas na Várzea da Ema, na Bahia. Poucos meses antes tinha vendido outra fazenda em Vila Bela. Quase no fim da vida adquiriu mais duas em Porto da Folha, perto de Angico, onde foi morto.

Seus parentes mais próximo, irmão e irmãs chegaram a comprar terras e residências nas cidades e é difícil saber se foram presenteados por Lampião ou usados corno testas-de-ferro.

Lampião era um homem rico e possuía muito dinheiro e ouro. Dizem que ao morrer, carregava cem contos de reis, valor de três fazendas no Nordeste. Nos seus bornais encontravam-se cinco quilos de ouro e também dizem que estavam destinados a prover o futuro de sua filha com Maria Bonita. Além dessa fortuna, tinha muitas jóias como cordões e anéis de ouro.

Isso era parte de sua fortuna, que carregava costumeiramente. O grosso de seu capital, em ouro e dinheiro, enterrava em vários esconderijos, dentro de botijas. Um desses esconderijos ficava no Raso da Catarina, numa série de locais marcados por ele com o nome das notas musicais cifradas cuidadosamente em mapas que se combinavam e que muito serviram em sua fuga para a Bahia.

Ele entesourava riquezas através de roubos e assaltos. Mas Lampião revelou talento empresarial. Foi, por exemplo, fornecedor de outras quadrilhas. Revendia armas compradas de traficantes comuns, com cem por cento de lucro. Isso criou inclusive uma dependência econômica de alguns chefes de bando inclusive gerando queixas por sua exploração.

O mais exótico empreendimento comercial de Lampião foi a sua entrada no ramo de transportes. Acabou fundando uma companhia de caminhões e automóveis, que lhe deu bons lucros. Fornecia o capital para a compra dos veículos e os sócios cuidavam da administração. Retiravam o necessário para a continuidade da empresa e dividiam o lucro com ele. Muita gente ficou feliz com sua morte pois não tinha nada registrado no papel e apenas seus sócios andavam direitinho, com medo de perderem a vida.

Lampião também empreendeu os famosos  salvo-condutos, transformando esse expediente como altamente rendoso, a ponto dele encomendar ao mascate-cineasta Benjamin Abrão a confecção de centenas de cartões de visitas, usados para esse fim.

Investiu também numa frota de canoas que faziam a travessia do rio São Francisco, usando o mesmo processo de aliciar sócios. Pessoalmente, esses fatos diferenciam Lampião de seu grupo social de origem. Foi um cangaceiro-empresário bem-sucedido.

Mas nada o distingue tanto desse meio, que hipoteticamente tinha nele o representante de sua revolta, como o fato sabido e consagrado de que ele jamais matou alguém realmente importante. Havia um compromisso rigorosamente observado entre cangaceiros e coronéis para que isso não quebrasse o pacto estabelecido entre eles. O deputado Floro Bartolomeu, falando na Câmara Federal, amenizou o cangaço destacando justamente o fato de que não matava gente de "posição":

"...no sertão é raro um homem de posição ser assassinado, mesmo de emboscada, nas estradas desertas; sempre estes fatos ocorrem entre os cabras, cangaceiros ou não, gente que não faz falta." Em pronunciamento na Câmara dos Deputados.

O cumprimento fiel desse pacto, aliado a um terrorismo implacável como meio de controle social, fez de Lampião um bandido de sucesso.


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17 de ago. de 2019

AS BOTIJAS DE LAMPIÃO NO RASO DA CATARINA

Por Raul Meneleu - Fonte de pesquisa no final da página

Lampião quando chegou na Bahia, não conhecia ainda o terreno e escondeu provisoriamente seu tesouro na serra do Tonã. 


Enterrou-o em um saco de couro e só mais tarde quando veio a conhecer melhor a região, esconderia definitivamente tal tesouro, no Raso da Catarina, provavelmente dinheiro em cédulas de maior valor*, adotando o mesmo sistema que usara no outro lado do rio São Francisco – botijas enterradas em pontos diferentes para maior segurança.


Segundo a crendice popular, a botija enterrada quando o dono morre, seu fantasma não encontra paz até ser encontrada e desenterrada. Os moradores da região do Raso da Catarina dizem que Lampião galopa constantemente em um cavalo branco, cantando “Mulher Rendeira” por trás dos serrotes, “aperreado” por algumas botijas encontrarem-se ainda enterradas, ele vagueia em noites de lua.


Ainda existe muita gente que sonha com as botijas de Lampião nesse árido e esquisito local. Mas se você for “picado” pela mosca da botija, e queira ir ao Raso da Catarina para encontrar e desenterrar esses tesouros escondidos, não deixe de contratar um guia local e levar muita água, pois a região é inóspita e ainda pode se deparar com os perigos de onças suçuarana e cobras cascavéis em seu caminho.

* Quando Lampião conheceu o Coronel Petronildo de Alcântara, poderoso fazendeiro conhecido por Coronel Petro, apresentado pelo vigário de Glória, o padre Emílio Moura Ferreira, o coronel ficou bastante assombrado com a quantidade de dinheiro que Lampião lhe mostrou, só notas graúdas, afirmando que tinha trazido para a Bahia três coisas: fome, nudez e dinheiro. Como Petro era homem ganancioso, convidou Lampião para investir em sociedade, na compra de fazendas. Lampião satisfeito, passou às suas mãos aquela dinheirama toda.

Fonte: Padre Frederico Bezerra Maciel em seu livro "Lampião, seu tempo e seu reinado" livro 4 A Campanha da Bahia.


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