9 de set. de 2016

SOBRE SOMBRAS E SÓIS

*Rangel Alves da Costa

Desejar o amanhã é semear o melhor até antes do adormecer. Ainda assim esperar que na passagem do repouso nada desfaça os grãos semeados. Por que nada acontece pelo desejo de acontecer. Nada será porque assim se desejou.

Vive-se num entremeado de não acontecidos, de surpresas boas e ruins, de inesperados repentinamente surgidos. O visitante que chega nem sempre é o esperado, a notícia recebida nem sempre é aquela ansiosamente aguardada. Mas triste a vida que fosse apenas previsível, já tudo com sua escrita adiante dos olhos.

Há um inverso no verso, e assim por diante. O sol se esconde para a lua aparecer. Há um tempo de tudo, segundo assevera o Eclesiastes. Não há declaração pessimista de vida, mas tão somente o reconhecimento de que o ser humano é apenas a medida do que mereça ser, tendo o que mereça ter, dentro de um limite que não se transforme em orgulho e vaidade.


E assim porque as palavras são sábias: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou. Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar. Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar. Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar. Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora. Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar. Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz”.

Mesmo com acontecimentos supostamente inesperados, nada acontece ao acaso. Uma escrita de vida por meio de linhas tortas, um desacerto que evita um mal maior, o que não aconteceu porque não previsto para aquele momento. A tudo isso se chama vida. Ela, o próprio espelho que mostra e esconde.

Sim, chora-se pelo amor perdido, pelo amor partido, pelo amor desamado. Mas quando a lágrima cessa, então eis o coração novamente fortalecido. E aquele amor perdido poderá ser de vez esquecido porque outro maior já brotava em silêncio para acontecer. Nada é vão. O sentido da existência é não perder o que a vida oferece.

E assim porque a vida é uma história de sombras e sóis. Uma trama, um enredo, um percurso, onde a luz se envolve de escuridão, e sendo possível tudo acontecer. Caminha-se com tempo aberto e retorna encharcado de chuva, segue adiante com sorriso nos lábios e de repente os olhos já não conseguem esconder tanto sofrimento.

Nenhuma felicidade se prolonga além do instante necessário de ser feliz. Nenhum sofrimento se eterniza além do instante que se tem de sofrer. E erra quem procurar levar adiante o que já não há razão de existir. Tudo o que é forjado ou forçado no ser tende a encobrir a outra verdade que necessita existir.

Na morte, por exemplo, há a dor, o pranto, o luto, a saudade. Mas ninguém deve enlutecer a existência para o restante do próprio viver. Por maior que seja o sofrimento, a dor pela perda e a saudade pela ausência, não haverá necessidade de se prostrar junto ao túmulo como se aquela morte fosse a própria vida. E também porque o viver não se perfaz somente no sofrimento.

Há luz no viver, há sol no viver, há também alegria no viver. As sombras e as escuridões existentes apenas motivam a busca de claridade, de paz, de esperança. Instintivamente, as pessoas são impulsionadas a busca portas, janelas, caminhos, estradas, saídas. Nem tudo é conseguido, é verdade. Mas todo acontecido sem fundamenta em alguma razão.

Sobre sombras e sóis o ser cumpre sua existência. Seja rico ou pobre, carente de quase de tudo ou bilionário, ainda assim há a mesma moeda de vida com suas faces. Todos entristecem e todos se alegram, todos adormecem e todos acordam, todos vivem e um dia partirão, indistintamente. E o mais importante: nem a pobreza nem a riqueza diferenciam os prazeres e as dores.

Ledo engano se imaginar que a riqueza vive iluminada de sol e a pobreza se contenta nos escondidos das sombras. O sol está ao alcance do olhar que o valoriza, a sombra sempre encobre aquele que não sabe viver debaixo do sol. E tantas vezes o sono profundo naquele deitado na cama de vara, enquanto que a insônia e o pesadelo atormentam aquele de cama macia.

Cada ser humano, em si mesmo, é o seu sol e sua própria sombra. A feição nega o sentimento e a razão amedronta perante a verdade. Quer ser pedra e já é pó, quer ser tudo e já é nada. E distante se vai de tudo que seja humildade, afeto, amor, fraternidade. Quer somente o sol. E na ilusão, sequer se reconhece à sombra.

Escritor
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